Texto da autoria de Vítor Pavão dos Santos

Sendo o Teatro, na sua mais profunda essência, a arte do efémero, vivendo da vibração conjunta do actor e do público, sendo feito com gente e com emoções, enquanto os museus se fazem com objectos, como é possível existir um Museu do Teatro? Como é possível meter gente e emoções num Museu?

Pois se quando o pano cai, ainda o actor não entrou no seu camarim para despir a personagem, ainda o público não abandonou a sala, e já da representação, da arte do teatro, nada mais existe senão aquilo que a memória guardou e o esquecimento acabará por vencer, como é possível que esse momento, essa arte de sua natureza tão fugidia como o próprio tempo, possa ser capturada num museu? É na vibração em conjunto entre o actor e o público que reside a grande força do Teatro. É na efemeridade dessa vibração que reside a fraqueza do Teatro.

Mas se tal vibração, pouco a pouco, se esbate na memória, coisas existem que podem, por momentos, torná-la viva, calorosa, quase presente. Coisas, por vezes olhadas como de pouca importância: um programa, uma fotografia, o som de uma música, talvez um simples bilhete de entrada ou um recorte de jornal. São os vestígios do Teatro.

É deles que um Museu do Teatro se alimenta, com eles tenta reconstituir um ambiente emocional, com eles se aventura a erguer uma personalidade, traçar a actividade de toda uma época, atenuar enfim esse injusto esquecimento a que o Teatro está condenado pela sua própria natureza.

Se o tal momento mágico, a vibração em comum, não se pode captar, todos os vestígios ajudam a prolongá-lo. Antes da representação existem já as maquetes dos cenários, os figurinos, depois o guarda-roupa e os adereços de cena, o texto marcado pelo encenador, anotado pelos actores e pelo ponto, o cartaz, o programa, o bilhete de entrada e tantas coisa mais. Depois da representações existem as críticas, os anúncios, as crónicas, as caricaturas ou desenhos, as músicas, as cartas, os postais, as mais variadas lembranças e, claro, as indispensáveis fotografias. Mais recentemente, talvez até uma gravação em vídeo do próprio espectáculo.
Nada disto pode captar o momento mágico que é o Teatro, mas o Teatro está presente em tudo isto. E tudo isto pode ser guardado, cuidadosamente arquivado, num Museu do Teatro, que não deverá nunca privilegiar um género, mas antes interessar-se por tudo quanto se desenrola num palco diante de uma audiência. Não apenas o teatro dito declamado, mas também a revista e a opereta, e o "music-hall", as artes mágicas, as variedades. Museu do Teatro que preserve o teatro do passado com tanto cuidado como o teatro do presente, que não tarda em ser passado.

Foi esta ideia que fundamentalmente presidiu à criação de um Museu do Teatro em Portugal, já que embora algumas tentativas tivessem sido feitas ao longo deste século, nada delas resultou de concreto e tudo quanto dizia respeito ao Teatro se continuava irremediavelmente a perder.

Porém, para falar um pouco da origem do actual Museu Nacional do Teatro, terei de recuar até algum tempo antes da sua fundação, mais precisamente ao mês de Agosto de 1970. Realizava-se, em Veneza, promovida pela Fondazione Giorgio Cini, uma grande exposição dedicada aos célebres Bibiena, a família bolonhesa que originou os mais importantes desenhadores e arquitectos teatrais do século XVIII, cujos membros trabalharam em quase todas as cortes da Europa.
Nessa ocasião, fui encarregado de transportar até Veneza alguns dos belos desenhos dos Bibiena existentes no Museu Nacional de Arte Antiga, trazidos para Portugal por Giovan Carlo Bibiena, quando, em 1752, foi chamado à corte de Lisboa pelo rei D. José, onde se encarregaria de construir a infeliz ópera do Tejo, inaugurada em 1755 e logo destruída pelo terramoto de 1 de Novembro desse mesmo ano.

Como desde há muito me interessava estudar esses desenhos, os quais causaram uma verdadeira sensação entre os muitos especialistas vindos de todo o mundo, presentes em Veneza, visto serem totalmente desconhecidos a nível internacional, fui convidado a participar numa mesa redonda sobre o assunto, que teve lugar, também na Fondazione Giorgio Cini, no final de Setembro de 1970.

Julgo importante lembrar esta história, pois foi por ocasião desta mesa redonda que tive, pela primeira vez, oportunidade de contactar directamente com directores e conservadores de museus de teatro de vários países, todos eles admirados com a súbita revelação dos desenhos bibienescos vindos de Portugal, todos eles interessados em conhecer alguma coisa sobre a actividade teatral, passada e presente, de um país, sob tantos aspectos, totalmente desconhecido.

Entre os mais interessados encontrava-se o Dr. Eric Alexander, então director do Toneelmuseum, o Museu de Teatro de Amsterdão, autoridade mundial em assuntos teatrais, com quem pude estabelecer uma boa amizade, que até hoje se mantém. Falei-lhe do teatro que por cá se fazia, mas, claro, tive de confessar não existir um local onde fossem preservados os vestígios das artes do espectáculo. A sua reacção foi de franco estímulo, encorajando-me a tentar a criação de um museu do teatro, chegando mesmo a afirmar que, embora não conhecendo Portugal, um país que possuía uma tão boa colecção de desenhos dos Bibiena deveria merecer, tudo o indicava, ter o seu museu do teatro. Curiosamente, agora que o Museu já abriu ao público há mais de onze anos, os tais desenhos continuam a fazer parte das colecções do Museu Nacional de Arte Antiga.
Esta ideia de um museu, que para mim não era nova, começou então a tomar forma. Posso mesmo afirmar que, desde essa altura, não mais deixei de pensar na urgência de um museu para o teatro português. Ideia que mais se fortaleceu com a visita a alguns museus do teatro estrangeiros.

Por tudo isto, elaborei, em 1978, um primeiro projecto do novo museu, no qual propunha, para lançamento da ideia, a organização de uma exposição teatral, incidindo sobre uma das épocas mais brilhantes do teatro português: A Companhia Rosas & Brasão (1880-1898).
Aceite superiormente esta proposta, logo se começou a reunir o material necessário para documentar este período já distante mas tão decisivo para a evolução teatral, essa companhia que, durante dezoito anos, sempre sedeada no Teatro de D. Maria II, fez a transição do teatro romântico para o teatro a que podemos chamar moderno, o teatro de equipa, onde cada um dos elementos que erguem o espectáculo têm um papel bem definido, onde um actor pode fazer um dia um papel principal e, na peça seguinte, integrar-se no conjunto, fazendo um pequeno papel.

Esta exposição, inaugurada no Museu Nacional do Traje em 2 de Fevereiro de 1979, veio demonstrar como, apesar do muito que se perdera, era ainda possível reconstituir uma época teatral brilhante a cem anos de distância. Por outro lado, a larga divulgação dada à exposição pelos meios de comunicação social e a afluência de público, provaram amplamente que o Museu do Teatro era um projecto que já não podia ser adiado, até porque as doações, que viriam a constituir as suas colecções, começaram a afluir num ritmo verdadeiramente encorajador, ultrapassando todas as expectativas.
Ficou então assente que o pequeno palácio do século XVIII que fora do Monteiro Mor e que em 1969, sendo Embaixada de Marrocos, um incêndio arruinara quase por completo, belo exemplar de habitação de veraneio setecentista, seria recuperado, para nele se instalar o futuro Museu do Teatro. Sabia-se que as obras iriam ser longas e dispendiosas, mas a beleza do edifício a recuperar e a sua situação num parque magnífico onde já existia outro museu, o Museu Nacional do Traje, justificavam plenamente todos os esforços.
Tendo em conta que do edifício original apenas restavam as paredes exteriores, a recuperação teve em atenção as necessidades expressas no programa do Museu, que previamente tinha elaborado, conseguindo-se conciliar um exterior do século XVIII, que foi escrupulosamente respeitado, com um interior de museu moderno, com duas amplas salas de exposição e, num aproveitamento meticuloso, encontrar lugar para gabinetes, reservas para trajos e adereços de cena, arquivo, depósito de livros e sala de leitura da biblioteca, um excelente auditório e uma cafetaria.

Em 1982 o Museu Nacional do Teatro foi criado oficialmente. Depois, enquanto decorriam as obras de recuperação do edifício onde seria a sua sede, uma pequena equipa começou a estudar e arquivar as suas colecções que, tendo começado do zero no início de 1979, se podiam considerar já vastas, não parando de crescer No dia 4 de Fevereiro de 1985, o Museu abriu as suas portas com a exposição Gente do Palco, através da qual se pretendia dar a conhecer ao público todo o tipo de espécies que constituem as suas colecções. Ou seja, apresentar o Museu ao público e também o público ao Museu.

Deste mútuo conhecimento resultou a segunda exposição: Gente do Palco – II Acto, inaugurada em 1986, bastante mais especializada, chamando a atenção para diversos aspectos do desenho teatral, focando muito em especial o teatro clássico, através de trajos e adereços de cena, maquetes de cenário, figurinos, fotografias e outra documentação. Esta exposição tinha, como complemento, um conjunto de teatros de papel, de brincar, dos séculos XVIII a XX, com larga incidência em espécies francesas do século XIX.
A exposição Teatros de Papel, quer pelo seu carácter didáctico, quer pelo fascínio que exerce no público de todas as idades, tem conhecido uma larga itinerância, tendo já sido apresentada em Lisboa, Porto, Coimbra e muitos outros locais.

Em 17 de Novembro de 1987, no preciso dia em que se completavam 70 anos da actividade teatral de Amélia Rey Colaço, o Museu Nacional do Teatro apresentou a sua primeira grande exposição temática, que envolveu um muito prolongado trabalho de investigação: A Companhia Rey Colaço Robles Monteiro (1921-1974).
Através de todo o tipo de documentação, com particular incidência em fotografias, trajos e adereços de cena, maquetes de cenário e figurinos, recortes de jornais e programas, foi possível recriar um pouco da vida, longa de 53 anos, dessa companhia teatral que se pode considerar a espinha dorsal do teatro português do século XX.

Ao fazer o levantamento da actividade desta Companhia, por onde passaram todos os grandes nomes do teatro da sua época e onde começaram quase todos aqueles que seriam os grandes nomes do futuro, procurou-se não fazer apenas uma enumeração dos muitos autores representados, quer nacionais quer estangeiros, mas conhecer um pouco como eram essas representações, muitas delas de grande inovação a nível plástico, e até, na medida do possível, dar a conhecer o seu estilo de representação.

Um dos aspectos de maior interesse relacionava-se com a apresentação de autores clássicos, sobretudo os portugueses e entre estes Gil Vicente, cuja obra mereceu a maior atenção, sendo levada à cena na sua quase totalidade. Foi também graças ao grande empenhamento de Amélia Rey Colaço na divulgação do teatro clássico que a tragédia Castro, de António Ferreira, considerada irrepresentável e, por isso, nunca levada à cena desde o século XVI, pôde ser conhecida na sua deslumbrante forma integral, sendo hoje considerada talvez a obra máxima da dramaturgia portuguesa.

Sendo Amélia Rey Colaço uma das personalidades que, desde a primeira hora, mais apoiou e ajudou a concretizar a ideia do Museu, foi muito grato que essa extraordinária mulher de teatro, então com 89 anos, tenha ainda podido ver que a sua obra não ficara esquecida, quer através da exposição e do seu catálogo, quer através de um volume de correspondência, também nessa ocasião publicado.
E assim deu início o Museu Nacional do Teatro a uma das suas missões fundamentais: fazer, a pouco e pouco e através de exposições temporárias, a história do espectáculo em Portugal, em todos os seus aspectos.
Em 1989, foi inaugurada uma das exposições do Museu que alcançou mais vasta repercussão: Amália Rodrigues. 50 Anos, focando a carreira inigualável desta grande cantora, quer em Portugal, quer no estrangeiro, assim como a sua importante actividade como actriz de teatro e de cinema. Também esta exposição exigiu um profundo trabalho de investigação, não se confinando, desta vez, aos arquivos nacionais, mas alargando-se aos arquivos das artes do espectáculo de Paris, Nova Iorque e Roma, entre outros.

Embora necessariamente incompleto, o itinerário fascinante de Amália Rodrigues interessou de tal modo o público que, desde então, seja qual for a exposição que o Museu apresente, há sempre visitantes que perguntam: "E onde é que estão os fatos da Amália?"
Depois, procurando chamar a atenção para um trabalho teatral muitas vezes pouco valorizado, foi apresentada, em 1990, a exposição Desenhar a Revista, com maquetes de cenário e figurinos para o teatro de revista, tipo de espectáculo que permite ao desenhador de teatro uma enorme fantasia.

Apesar de a exposição contar com trabalhos desde o início do século XX, foi dado particular relevo à grande inovação trazida para os palcos por José Barbosa, que deu origem a que a estética revolucionária dos Ballet Russes aparecesse finalmente em Portugal, através do teatro de revista, devido depois também à colaboração de um conjunto notável de desenhadores modernistas que, a partir de finais dos anos 20, foram chamados a decorar os palcos revisteiros, como Maria Adelaide Lima Cruz, António Amorim, Jorge Barradas, Stuart Carvalhais, Jorge Herold, Alamada Negreiros, António Soares e outros.
No entanto, toda a segunda parte desta exposição foi dedicada ao grande desenhador Pinto de Campos, que ao teatro musicado consagrou, quase em absoluto, a sua arte magnífica, plena de imaginação e bom gosto.
Em 1991, a exposição Eunice Muñoz. 50 Anos da Vida de Uma Actriz, que envolveu uma vasta investigação, permitiu fazer o levantamento de toda a carreira de uma das maiores actrizes portuguesas deste século, que se consagrou através de muitas interpretações notáveis, quer no teatro quer no cinema e televisão, galardoada com um sem número de prémios, condecorações e outras distinções.

Devido ao facto de Eunice Muñoz ter uma carreira que abrange todos os géneros de espectáculo: comédia, drama, tragédia, farsa e até opereta e revista, , tendo passado por quase todos conjuntos teatrais do seu tempo, como a Companhia Rey Colaço Robles Monteiro, onde se estreou; Os Comediantes de Lisboa; Teatro Nacional Popular; Companhia Portuguesa de Comediantes, da qual foi titular; ou companhias de grandes actores muito populares, como Maria Matos, Vasco Santana ou Alves da Cunha; a empresas célebres, como a de Vasco Morgado, tendo colaborado também com as companhias mais jovens, como o Teatro Experimental de Cascais e o Teatro da Cornucópia, para além da sua actividade, em anos mais recentes, como primeira actriz absoluta do Teatro Nacional de D. Maria II, por tudo isto, fez-se também um pouco da história do espectáculo em Portugal nos últimos 50 anos, através da carreira fabulosa de Eunice Muñoz.

Quando estava patente esta exposição, o Museu Nacional do Teatro teve o grande prazer de receber os mais importantes especialistas, vindos de todo o mundo, para participar no XIX Congresso Internacional da SIBMAS (Sociedade Internacional de Bibliotecas e Museus das Artes do Espectáculo), que, em Setembro de 1992, teve lugar em Lisboa, organizado pelo Museu. Este acontecimento permitiu que esses especialistas, cuja grande maioria nunca viera a Portugal, tomassem um contacto directo com o trabalho que se faz no Museu, tendo constituído um enorme estímulo o seu acolhimento francamente favorável. Entre estes especialistas encontrava-se o Dr. Eric Alexander, cujo entusiasmo ajudara, há 22 anos, ao arranque da ideia do Museu.
Em 1987, o Museu Nacional do Teatro fora já distinguido com uma Menção Especial do Prémio Europeu do Museu do Ano (Conselho da Europa), em sessão que decorreu em Durham (Inglaterra), assim como o Prémio Mouseion para a categoria "Melhor Novo Museu", por altura de um congresso de museus de expressão portuguesa, realizado no Rio de Janeiro.

Integrando-se nos eventos de Lisboa 94. Lisboa, Capital da Cultura, o Museu Nacional do Teatro organizou uma grande exposição de trajos de cena, cuja grande maioria fora concebida, no início dos anos 50, para o Teatro do Povo, dirigido por Francisco Ribeiro, pelos grandes desenhadores teatrais portugueses José Barbosa e Abílio de Matos e Silva, e também um conjunto desenhado, em 1987, pelo encenador Filipe La Féria, agrupados de forma a ilustrar oito das épocas mais importantes do teatro ocidental. Esta exposição, que se intitulava O Grande Teatro do Mundo ou Os Clássicos em Lisboa, contava com esse vasto conjunto de trajos, assim como os seus adereços, grande parte com mais de 40 anos, que foram cuidadosamente recuperados nas oficinas de conservação e restauro do Museu, tendo sido expostos, como sempre acontece, com uma intenção didáctica e teatral, assim se procurando que o público possa participar um pouco da vida da cena.

Ainda em 1994, o Museu recebeu uma magnífica exposição, vinda de Itália: Vestir o Sonho. A Colecção Tirelli. Conjunto admirável de trajos históricos e trajos de cena reconstituídos com uma inigualável perfeição, não se distinguindo dos históricos, a mundialmente famosa colecção do Atelier Tirelli, sediado em Roma, engloba trajos para ópera, teatro e muito em especial para o cinema, criados pelos mais importantes desenhadores italianos, como Lila de Nobili ou Piero Tosi, para filmes muito famosos, como aqueles realizados por Luchino Visconti, trajos usados por grandes divas, como Maria Callas ou Silvana Mangano, trajos enfim, que fazem parte do imaginário mais profundo dos espectadores de cinema. Esta exposição foi montada pela equipa do Atelier Tirelli, comandada pela famosa Gabriella Pescucci, Óscar para o melhor guarda-roupa em 1993, e trabalhando em estreita colaboração com a equipa do Museu. E foi para o Museu uma muito grata sensação poder considerar-se apto a receber condignamente uma grande exposição internacional.

Paralelamente a estes acontecimentos, o Museu Nacional do Teatro passou a contar, em Setembro de 1993, com um novo espaço de exposições, uma galeria devidamente equipada, situada no Parque, junto ao Museu, que foi inaugurada com O Escaparate de Todas as Artes ou Gil Vicente Visto Por Almada Negreiros, exposição integrada nas comemorações do centenário do nascimento de Almada Negreiros, constituída pelos trajos muito originais e de grande beleza desenhados por este artista multifacetado, em 1965, para o Auto da Alma, de Gil Vicente.

E eis um pouco da história do Museu Nacional do Teatro, cujas colecções começaram do zero em 1979 e que hoje, devido sobretudo a grandes e generosas doações, conta com cerca de 300 000 espécies.